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Deformidade tipo CAM em femur proximal surge na infância em resposta à atividade esportiva vigorosa


Evidências crescentes apontam para o papel das deformidades do fêmur proximal na etiologia da osteoartrite do quadril, embora os aspectos patomecânicos da degeneração permaneçam em investigação. Uma das deformidades mais comuns no fêmur proximal é o tipo cam, geralmente representada por uma extensão não esférica da superfície articular na junção anterosuperior da cabeça-colo, o que pode levar à lesões secundárias ao impacto femoroacetabular e diminuição da amplitude de rotação interna.

Alguns autores sugerem que o tipo de deformidade cam pode ser atribuída aos distúrbios de crescimento e / ou doenças da infância como um deslizamento silencioso da cabeça femoral, padrão anormal de ossificação, doença de Perthes e até reações auto-imunes.

Em 1971, Murray e Duncan relataram um aumento da prevalência de dor no quadril em atletas, incluindo atletas de elite, com características patomorfológicas do tipo cam do fêmur, o que, em anos anteriores, era descrita como uma deformidade punho de pistola. Atletas do sexo masculino, especialmente aqueles envolvidos no futebol, handebol e atletismo competitivo, tinham um início mais precoce e maior risco de osteoartrite do quadril. A prevalência de osteoartrite do quadril é de 3 a 8,5 vezes maior do que em indivíduos não atletas, dependendo da intensidade das atividades atléticas e das cargas impostas nos quadris. Há relatos na literatura, de que a deformidade tipo cam em atletas jovens, possa ser atribuida às exigências das atividades esportivas vigorosas durante a fase do crescimento. Murray e Duncan foram os pesquisadores que originalmente formularam este pensamento a partir de suas observações de que, a maior prevalência (24%) das deformidades da cabeça femoral ocorreriam em adolescentes que foram expostos a regimes de esportes mais vigorosos e à tensões elevadas no sistema esquelético durante a fase escolar, com início anterior aos 14 anos de idade.

Com o ojetivo de verificar esta relação, Siebenrock et al. realizaram um estudo retrospectivo com avaliação por ressonância magnética em 72 quadris, 37 jogadores de basquetebol do sexo masculino, com idade média de 17,6 anos e 76 quadris assintomáticos, de 38 voluntários da mesma idade que não participaram de atividades desportivas de nível elevado.

Os elementos chaves deste estudo foram a detecção de dor no quadril, comparação da rotação interna e mensuração do ângulo alfa na junção cabeça-colo femoral. As perguntas a serem respondidas eram: (1) a prevalência de uma deformidade do tipo cam do fêmur proximal é maior em atletas do sexo masculino em comparação com não atletas?; (2) a deformidade cam é menos pronunciada na infância, mas teria um aumento com a participação em atividades físicas vigorosas durante o desenvolvimento do quadril e fechamento da físe?; e (3) a dor e a diminuição da rotação interna do quadril são mais freqüentes em atletas do sexo masculino do que no controle de indivíduos saudáveis?

Os volúntarios atletas pertenciam a um clube de elite de basquete da Alemanha e tinham como pré requisito, a participação ininterrupta em um programa de atividades esportivas de treinamento e jogos competitivos desde os 8 anos de idade. No âmbito deste programa, as atividades típicas de treinamento consistiam em três sessões de treinamento e / ou em um jogo por semana para os jogadores de 9 a 12 anos de idade; quatro a cinco jogos ou sessões de treinamento por semana para os jogadores de 13 a 15 anos de idade; e até oito sessões de treinamento ou jogos por semana para os jogadores de 16 anos ou mais.

O protocolo do estudo consistiu na avaliação de ambos os quadris em cada indivíduo. A história sobre dor nos quadris e as atividades esportivas foram obtidas via questionário. No exame físico do quadril foi dado um foco especial na rotação interna com flexão de quadril a 90º. Adicionalmente, o teste de impacto anterior foi realizado em cada indivíduo. Este teste foi considerado positivo, quando reportado dor aguda na região da virilha ou quadril ântero-lateral durante a realização de rotação interna em flexão e leve adução.

A avaliação por ressonância magnética, contemplava dois componentes: primeiro, as características morfológicas da junção cabeça-colo femoral; e segundo, o ângulo alfa que mede a parcela da junção cabeça-pescoço que não encaixa em uma esfera, sendo o valor superior a 55º geralmente considerado patológico. As mensurações dos ângulos alfa foram realizadas em todo o hemisfério cranial, das nove horas ( posterior) as três horas ( anterior).



Ao final do estudo, conclui-se que os indivíduos atletas tiveram uma maior média de valores do ângulos alfa em todo o quadrante ântero-superior da junção cabeça-colo, sendo na posição a 1:00 o maior valor obtido ( 60.5º) quando comparado com o grupo controle ( 47.4º) .

A média dos ângulos alfa no quadrante ântero-superior foi superior nos atletas, pós fechamento fisário,quando comparado com os valores médios anterior ao fechamento. A maior média do ângulo alfa foi de 64,3º ± 7.6º na posição 1:00 nos quadris com as físes fechadas. O grupo controle não mostrou diferença na média em ângulos alfa antes e depois do fechamento da placa de crescimento.

Após o fechamento da fise, uma percentagem mais elevada dos atletas apresentaram um ângulo alfa de 55º ou superior, em pelo menos um local de medição em comparação com o grupo controle: 89% (41 de 46 quadris) versus 9% (quatro de 44 quadris), respectivamente.



O relato de dor no quadril ou dor referida durante o teste de impacto anterior foi muito mais freqüente em atletas do que nos indivíduos controles. Sete dos 37 atletas (19%) relataram que tinham dor na região do quadril, especialmente durante ou após a atividade física. Em quatro destes sete atletas, a dor no quadril foi bilateral.

A rotação interna do quadril em flexão foi reduzida nos atletas em comparação com o grupo controle: 18,9º ± 11,0º (variação de 0º -45º ) versus 30,1º ± 6,9º (variação de 15º-45º).

Os resultados apresentados neste estudo sugerem que uma alta intensidade de atividade esportiva durante a infância e adolescência está associada a um aumento substancial do risco de desenvolvimento do impacto femoroacetabular tipo cam, assim como coxartrose secundária. Há muito tempo, a prática esportiva na infância e adolescência é associada como algo benéfico no desenvolvimento físico do indivíduo, porém o gesto esportivo em qualquer modalidade escolhida, induz a uma preferência de gestos e de movimentos esteriotipados, capaz de modificar o processo de ossificação do esqueleto imaturo em relação a sua morfologia e a passagem de forças mecânicas, e por consequência, prejuízos precoces ao sistema osteocondral.



Ft. Patricia Pellegrini Nomoto e Ft. Maciel Murari





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